Escondidos de nós...

Feb 05, 2015

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Muitas vezes ouvimos expressões como ‘conhecer-me’, ‘saber quem sou’, ‘descobrir-me’, ‘encontrar-me’… As perguntas que se impõem depois de ouvirmos isto são: Afinal onde andamos nós para não nos encontrarmos? O que fazemos para não nos conhecermos? Será que nos andamos a esconder de nós próprios?!

Podemos intuir que nos autoludibriamos? Que deliberadamente nos enganamos relativamente a quem somos? Aparentemente expomo-nos com relativa facilidade ao mundo e aos outros, mas quando toca a expormo-nos a nós próprios parece que não o conseguimos fazer com tanta facilidade (ou não queremos!…).

Afinal o que acontece para que, ao longo de anos e anos de convívio connosco, não nos consigamos conhecer? Que consciência poderemos ter de nós, do que somos e do que fazemos, sem que nos conheçamos bem? Será que o EU que escondemos, e do qual nos escondemos, é o mesmo que apresentamos aos outros? Será que no fundo sabemos quem somos mas decidimos apresentar ao mundo uma versão de nós próprios que consideramos mais agradável? Ou será que criamos um outro EU para nos alheamos de nós, para não termos que conviver connosco, com as coisas que não gostamos em nós, para não sermos confrontados com aquilo que na realidade somos?

São sem dúvida questões complexas que em muitos casos constituem um problema para quem as vive. Apesar de tentarmos escondermo-nos de nós próprios a verdade é que não conseguimos, isso não é possível. Podemos fingir que somos diferentes, podemos tentar fazer coisas com as quais não nos identificamos, podemos vestir outra roupagem, mas a verdade é que nunca deixamos de nos sentir. Se houver uma dissonância entre o que queremos ser e o que que verdadeiramente somos, ela é sentida por nós e, na maioria das vezes, é também percecionada pelos outros. Há sempre algo em termos de linguagem, verbal ou não-verbal, que denuncia a estratégia de camuflagem do nosso EU, que denuncia a nossa verdadeira identidade.

Podemos falar muito de nós aos outros, tentar explicar o que somos e sentimos, podemos até ressignificar as nossas emoções e sentimentos e expressá-las de forma diferente ao que sentimos. Podemos fingir que não nos vemos e tentar que os outros não vejam aquilo que somos, mas a verdade é que nunca o conseguimos. Acabamos sempre por involuntariamente (pois são ações inconscientes) sermos expostos pelas nossas atitudes, ações, palavras, expressões… Há uma parte em nós que não está confortável com essa situação e que nunca se acomodará. Essas pequenas incongruências linguísticas e comportamentais denunciam a situação de fraude em que vivemos e são como que gritos surdos de um EU que quer ser ouvido. Na verdade, o que todos queremos é sermos nós próprios e que nos aceitem como tal.

Fingir que não somos nós, escondermo-nos de nós próprios, enclausurar o nosso verdadeiro EU não é bom para a saúde e causa grandes danos. Basicamente é tentar levar uma vida de mentira, é obrigar o nosso cérebro a desgastar-se pois tem muito mais trabalho. Cada ação que empreendemos contra a nossa vontade, cada não verdade que dizemos sobre nós, cada opinião que emitimos com a qual não concordamos, obriga o cérebro a despender um duplo esforço ou até triplo. Pensamos no que diríamos se pudéssemos, depois pensamos no que queremos dizer perante aquelas pessoas e pensamos também no que estas vão pensar de nós. Bem diferente de dizer simplesmente aquilo que queremos.

Este processo é tão desgastante e prejudicial para a nossa saúde, que acaba por ser doloroso pois estamos, constantemente, a sentir os motivos que nos levaram a esconder-nos de nós próprios. Acaba por ser uma estratégia falaciosa que se assemelha a automutilação emocional.
Empreender uma viagem de auto auto-conhecimento pode não ser fácil, podemos inclusive precisar de ajuda, de um parceiro de viagem que nos dê a mão e um empurrão, ou até mesmo nos guie, num determinado percurso. Temos que enfrentar medos, aceitar realidades não perfeitas, deixar cair dogmas e convicções limitadoras, aprender a viver com quem somos e gostar…

Descobrir e libertar o nosso verdadeiro Eu não é certamente tarefa fácil mas, sem sombra de dúvidas, será a mais importantes e meritória que podemos empreender na vida. Sem saber quem somos não vivemos em plenitude, somos sempre um projeto na gaveta à espera de poder ser implementado e vivido. Dessa forma não somos saudáveis, vivemos em constante ansiedade porque há uma parte em nós reprimida que quer ser ouvida; há sonhos que precisam de ser libertados e realizados, há um EU que precisa de viver.

 



Categoria: Post

Ana Raquel Veloso

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Licenciada Comunicação
Pratictioner Program. Neurolinguística
Pós-Graduada Neuropsicologia Clínica


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