O AMOR e as Neurociências

Feb 12, 2016

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No dia 14 de Fevereiro comemora-se o dia de S. Valentim, padroeiro dos enamorados e apaixonados. As histórias e lendas sobre esta figura são muitas, contudo vagas e pouco precisas. Mas neste dia o importante mesmo é o tema – o Amor.

Já muito se disse e escreveu sobre este tema, o nosso grande poeta Camões dizia que “O amor é um fogo que arde sem se ver, é uma ferida que dói e não se sente …” talvez este seja um bom ponto de partida para uma breve exploração da neurobiologia destas nossas emoções - o AMOR e a PAIXÃO.

Quando falamos de Paixão a verdade é que nem tudo é um mar de rosas. Diz o senso comum que as paixões cegam, turvam as mentes mais lúcidas e podem até enlouquecer os menos afortunados. Este efeito avassalador da paixão no organismo humano tem vindo a despertar o interesse das neurociências e surgem agora alguns dados interessantes.

São vários os estudos realizados com o objectivo de investigar a biologia das relações afectivas e os estados alterados da mente devido à paixão. Recentemente foram publicados dados de um estudo onde os níveis de serotonina em três grupos eram comparados: um de pessoas apaixonadas, outro de pessoas com Distúrbio Obsessivo Compulsivo (DOC) e outro ainda de pessoas sem qualquer uma destas ‘patologias’. Os resultados foram interessantes pois os dois primeiros grupos apresentaram resultados semelhantes, níveis de serotonina cerca de 40% abaixo do normal.

Se consideramos que este neurotransmissor, a serotonina, é responsável pela regulação de uma série de funções do nosso organismo – sono, apetite, emoções, humor – percebemos a sua importância no nosso bem-estar. Mais, se considerarmos que quando os seus níveis estão baixos podemos andar mais irritados, agressivos, ansiosos, confusos, menos tolerantes, atentos, e até menos dispostos a utilizar o nosso córtex pré-frontal na tomada de decisões, começamos a perceber que as eventuais semelhanças encontradas entre os estados de Paixão e Obsessão (DOC) poderão não ser pura coincidência.

Na fase inicial de paixão o córtex pré-frontal não é ouvido nem achado. Sem que seja uma deliberação consciente esta parte do cérebro é desligada, enclausurada numa masmorra para que todo e qualquer pensamento racional, coerente e lúcido, não interfira com o estado emocional que impera. Esta área do cérebro está também associada à nossa personalidade, a determinadas características que nos identificam e tornam únicos. Podemos assim perceber porque é que por vezes se diz das pessoas apaixonadas - que não parecem as mesmas, que têm um comportamento diferente do habitual, que fazem coisas inesperadas, que mudaram…

Na fase de paixão inicial não é possível pensar, apenas sentir, e para isso há zonas especializadas no nosso cérebro e muito mais eficazes na arte do sentir. Zonas que são responsáveis pelas nossas emoções primárias, pelos instintos, pela sensação de recompensa e prazer, bem como, pelo sentimento de punição e desgosto.

Mas saber que o cérebro de uma pessoa apaixonada e de uma pessoa que sofra de DOC têm os mesmos níveis de serotonina, parece ser um mal menor nestes meandros das paixões e do amor. Na verdade quando falamos de Amor, e de Amor à primeira vista, as neurociências introduzem conceitos pouco habituais. Assim, há quem sugira que nos apaixonamos por pessoas com personalidades moldadas por perfis químicos semelhantes ao nosso; que as questões da biologia e química influenciam e determinam o nosso conceito de beleza; que questões como a simetria facial, saúde e seletividade não são dissociáveis; que a questão da manutenção do amor está dependente da frequência dos seus estímulos. É caso para perguntar – que papel desempenhamos nós em tudo isto?

Basicamente o nosso papel é não atrapalhar! Tentar ter a clareza emocional para analisar o nosso comportamento e perceber se o que fazemos é o melhor para nós, se as nossas intenções são claras, se nos estamos a respeitar, se somos felizes com as nossas escolhas e se conseguimos fazer felizes os outros. 

Mesmo que já não estejamos sujeitos às influências bioquímicas dos estados iniciais de paixão, mesmo mais tarde numa fase em que já possamos vislumbrar aquilo que aparenta ser um grande amor, temos que ter cuidado com os engodos, com as rasteiras emocionais que a nós próprios fazemos. O nosso cérebro não gosta de se enganar e tudo faz para encontrar coerência nos processos. Mais, quando ele não se engana, gostamos nós de o enganar – pois na verdade antes ele que nós!

Nós detestamos enganar-nos relativamente a alguém, ou relativamente a algo que fazemos - mas gostamos ainda menos de o admitir. Muitas vezes, por orgulho, medo, ou por não sabermos fazer melhor, tentamos ocultar esse nosso engano encontrando argumentos e falsas memórias que o contrariem, não percebendo que os únicos prejudicados seremos apenas nós…

 



Categoria: Nós & a Família

Ana Raquel Veloso

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Licenciada Comunicação
Pratictioner Program. Neurolinguística
Pós-Graduada Neuropsicologia Clínica


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